quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Vazio

O piano era tão triste, tão desconexo em si mesmo.O louco não era assim tão louco, se olhado de perto.
Talvez quisesse se expressar, quisesse se mostrar entendedor de tocar pianos na Luz. 
É que a estação era do lado da vida a fora, era do lado da praça, do registro histórico, do museu, da arte internacional, do acervo escondido. Era ao lado do mendigo que teve convulsão em silêncio. E tocavam o piano sem ritmo. Com o coração compassado. O piano era tão desafinado, mas afinado se ouvido em silêncio. O silêncio dessa neblina, desse dia tão frio. 

A estação da Luz não era assim tão bonita, se olhada devagar, sem ser na correria. O seu cabelo era tão grande, sua calça era vermelha, ele era tão solto. O outro cara me perguntou se eu duvidava que ele levava cachaça em sua mochila. Disse que era maquinista. A maquinaria não acompanhava o piano, ele disse que não tinha interesse. Não me importava com o Seu Mariano, queria que fosse embora, mas ele insistiu em conversar, insistiu em dizer que era viciado, que não queria ficar preso na fazenda de reabilitação. 
E o piano tocava como louco, e o louco tocava o piano, e a louca parava, e eu, louca, ouvia, tentava entender.

Aí percebi (ou vou perceber) que tem coisas que não são entendidas, que são coisas intrínsecas à vida seca. Vida seca, úmida pelo dia chuvoso sem chuva. E as mãos tinham as extremidades geladas,meu dedão era gelado,meu sapato estava sujo 

de barro. 

E o sarro que
tiramos dessa gente
que pára pra
tentar sentir
a alma. 

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