sábado, 21 de julho de 2012

FIOS



O céu estava de um azul concentrado. O sol se espreitava entre dois prédios; ela tirava suas sapatilhas enquanto sentava num tablado de madeira. Encostou sua cabeça à parede, pôs o cachecol xadrez sobre seu rosto como se protegesse seus olhos do contato direto ao sol fraco, nem se importou comigo ao seu lado. Fez que não se importasse pela minha presença. Sua blusa desfiava, seus cabelos dourados eram mais dourados ainda ao sol, ah, nem sabia que não eram dourados de verdade, eram somente desbotados por oxigenação; que seja, eram bonitos assim curtos.

Olhava o céu, o mesmo do azul concentrado de meia hora atrás, o sol ia-se indo, não queria que se fosse assim frio. Frio foi-se sem dar tchau, queria ter visto a parte da cidade que se encontrava laranja: o belo de pôr do sol em dias sem nuvens era que as tonalidades se tornavam avermelhadas e alaranjadas...

-Conte-me algo-ela falou quebrando meu pensamento laranja.
-Contar o que?- Perguntei sem pensar...
-Ah, não sei... Conte-me algo! Pergunte-me algo, eu respondo.
E a conversa foi-se seguindo sem muitas risadas, sem muito interesse, sem muita reciprocidade de ideias. Tirei dos meus pés meu “ super-star” de cano alto; não liguei que a ponta de meu dedão estava exposta. Expostos estávamos nós ao sol...
-"Não estou disposto a ficar exposto ao sol..."
-Quê?
-Nada não... Uma música, mas eu quero ficar exposto a esse sol que já se vai...

Quando eu olhava para um dos prédios a nossa frente parecia que ele ia cair em minha direção. Olhei para ela por algum tempo. Havia tirado o cachecol do rosto, mas fechou seus olhos pequenos, juntou as pontas dos pés, estendeu as pernas. Ficamos assim, ambos estendidos ao fino fio de sol.

Fio de sol era parte de seu cabelo artificial. Aí reparei que as amizades se desgastam, gastei 3 reais à toa, o tempo passa,  ela não via mais muita graça em minha companhia solitária, eu sabia superficialmente de sua vida, ela não sabia nada da minha, e os fios de cabelo tornam-se loiros.