O céu estava de um azul
concentrado. O sol se espreitava entre dois prédios; ela tirava suas sapatilhas
enquanto sentava num tablado de madeira. Encostou sua cabeça à parede, pôs o cachecol xadrez sobre seu rosto como se
protegesse seus olhos do contato direto ao sol fraco, nem se importou comigo ao
seu lado. Fez que não se importasse pela minha presença. Sua blusa desfiava,
seus cabelos dourados eram mais dourados ainda ao sol, ah, nem sabia que não eram
dourados de verdade, eram somente desbotados por oxigenação; que seja, eram
bonitos assim curtos.
Olhava o céu, o mesmo do azul
concentrado de meia hora atrás, o sol ia-se indo, não queria que se fosse assim
frio. Frio foi-se sem dar tchau, queria ter visto a parte da cidade que se
encontrava laranja: o belo de pôr do sol em dias sem nuvens era que as
tonalidades se tornavam avermelhadas e alaranjadas...
-Conte-me algo-ela falou
quebrando meu pensamento laranja.
-Contar o que?- Perguntei sem
pensar...
-Ah, não sei... Conte-me algo!
Pergunte-me algo, eu respondo.
E a conversa foi-se seguindo
sem muitas risadas, sem muito interesse, sem muita reciprocidade de ideias.
Tirei dos meus pés meu “ super-star” de cano alto; não liguei que a ponta de
meu dedão estava exposta. Expostos estávamos nós ao sol...
-"Não estou disposto a ficar
exposto ao sol..."
-Quê?
-Nada não... Uma música, mas
eu quero ficar exposto a esse sol que já se vai...
Quando eu olhava para um dos
prédios a nossa frente parecia que ele ia cair em minha direção. Olhei para ela
por algum tempo. Havia tirado o cachecol do rosto, mas fechou seus olhos
pequenos, juntou as pontas dos pés, estendeu as pernas. Ficamos assim, ambos
estendidos ao fino fio de sol.
Fio de sol era parte de seu
cabelo artificial. Aí reparei que as amizades se desgastam, gastei 3 reais à
toa, o tempo passa, ela não via mais
muita graça em minha companhia solitária, eu sabia superficialmente de sua
vida, ela não sabia nada da minha, e os fios de cabelo tornam-se loiros.