Se meu desanimo não fosse
tão presente, o presente não fosse caro demais,
o sentimento não me ardesse tanto, não me fizesse
amargar, se eu não tivesse sido tão autista quando
te fotografei naquele campo de futebol imensamente vazio, vago,
naquela cidade
pa-
ca-
ta
e
se não tivesse descoberto que as fotos, por mim tão estimadas, não foram reveladas,
se o rolo de filme não tivesse dez anos,
eu não estaria cá, não estaria a
falar sobre ti, a dizer que te quero,
que te gosto, que
teus cabelos não são assim
tão bagunçados, tão sem corte, tão sem vida,
eles tem vida própria, mas não é má,
a minha vida que é má, que me gira
num gira-gira no parquinho
sem crianças.
E as analógicas não tem lógica,
elas me deixam na expectativa de tê-las, de vê-las, sentir o papel-filme,
me deixam meio sem rumo quando me encontro
numa tarde de domingo nublado, com textos de antropologia acumulados.
Momento Funes
"De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado..." -Jorge Luis Borges
domingo, 22 de setembro de 2013
Paranapiacaba
Levei minha câmera analógica pra Paranapiacaba, tirei fotos dos latões de óleo, do teu olhar cansado que andava pelo trem às 6h da manhã. Fotografei aquele cemitério velho, aquela cruz com faixas coloridas, o sol ao fundo daquela manhã fria e quente. Pedi que você ficasse parado na viela, na minha vida. Tinha um gira-gira num parquinho vazio. Girei no gira-gira, me senti um tanto quanto tonta, mas o gira-gira me girou, e nem tinha girassol na paisagem, mas eu também vi o sol girar, sol girou sem girassóis, os girassóis precisam do sol pra girarem, mesmo que o sol não precise dos girassóis. Nunca precisou. A vida me girou, me deu enjoo.
A neblina também não precisou do sol, ficou por ela mesma, a areia do parquinho sem crianças sujou meus sapatos. Eu gostei dos cachorros que encontramos pelo caminho, as casas simples, o cenário decadente e rural. Me senti bem contigo, bem em sua companhia que caminhava cansado, cansado, sem saldo no banco...Foquei o enquadramento, as pichações dentro dos balcões, o seu all-star verde que ano passado era preto, e tinha o cheiro de marofa, o cheiro de mato queimado e também tinha o cheiro do mato molhado pela neblina seca. E a gente andava por ali fotografando o que fosse interessante, mudava a velocidade do obturador, ajustava a entrada de luz na câmera, o tempo de exposição. Sentamos no campo de futebol sem ninguém, pareceu tão imenso, ficou tão legal a imagem do seu perfil com o campo ao fundo, eu dormi e tava tão quente, era tudo desconexo e esquisito, mas era bom deitar no teu colo nesse calor estranho e nessa ausência suspeita de pessoas. Trocamos o filme, fiquei com receio de que as fotos se perdessem.
Tinha a fogueira que quis fotografá-la, você disse que seria incômodo.
Achei o trem bonito, tinha as janelas riscadas e você sentou no último vagão com aquele olhar vago.
As fotos não foram reveladas. O filme era velho já, tinha dez anos. E talvez a paisagem de Paranapiacaba nunca mais fique daquele jeito, talvez nunca mais a olharemos com os mesmos olhos e talvez eu aos poucos me esqueça dessas lembranças visuais que agora me são tão vivas num lugar tão morto.
Recentemente li um conto do Borges em que ele falava que no fim das contas, o que fica nas lembranças não são as imagens, mas as palavras. O que fica na lembrança talvez sejam essas coisas desconexas, essas imagens verbalizadas em palavras agora. É isso o que resta, o que resta do que restou do dia, daquele sanduíche que eu fiz, que você disse que estava bom, de quando eu mexi no seu cabelo e você disse que ia bagunçá-lo. Ah, mas já estavam tão bagunçados, a gente é bagunçado, sabe, moço. A vida é bagunçada e não nos conta que as fotografias não serão reveladas, nem conta que os dias não serão mais os mesmos e que a luz que incindiu daquela forma nunca volta a ser desse jeito de novo. A vida também não nos conta que as lembranças não são as mesmas lembranças sempre, elas se idealizam, se atrofiam tentando manter a pose.
sábado, 14 de setembro de 2013
DIa seco
Sol salgado.
Seco. Beco da praça.
Me disse que preferiria
estar exposto ao sol do que
ter uma religião, que é analgésica
empacotada pra esquecer os problemas.
É que essa tristeza,
esse estranho desespero
diluído na rua,
na praça,
na lua - quando ela aparece-
é o que me faz dizer
que os dias são pesados,
com seus sabores diversos,
e o sol é denso,
o vento é lento,
e é tudo parado.
E tem o cachorro que late
pra a gente no banco da praça
e a moça que cuida do cachorro
e a gente que dá oi pro cachorro que
caga
na
praça, depois de latir.
E tem as folhas em veludo,
e tem minha felicidade
velada
pelo dia esquisito,
pela carta mal escrita,
pelo beijo com sabor de lágrima.
Pra mim, as lágrimas são salgadas,
mas têm os dias em que são doces
e os dias em que não têm gosto algum.
E tem as lágrimas secas,
quietas.
Essas são as piores,
e tem os olhos vermelhos,
as narinas abertas,
as mãos trêmulas que tentam ser tiradas
de dentro das outras mãos.
Tem os textos pra ler, os Manuscritos de Marx, para entender. Marx me disse que a religião é forma de estranhamento, mas de estranho eu já tenho a vida, a estranho, te estranho às vezes também, assim como você me estranha em dias como esse.
E tem você,
que me vê triste,
que me vê,
que não insiste
em ter
qual-
quer
dia
que
se
di-
ga
belo.
E que não me deixa explicar que a sua doçura é o melhor dos sabores da vida, que quando se ausenta me torna uma obra do Munch.
Seco. Beco da praça.
Me disse que preferiria
estar exposto ao sol do que
ter uma religião, que é analgésica
empacotada pra esquecer os problemas.
É que essa tristeza,
esse estranho desespero
diluído na rua,
na praça,
na lua - quando ela aparece-
é o que me faz dizer
que os dias são pesados,
com seus sabores diversos,
e o sol é denso,
o vento é lento,
e é tudo parado.
E tem o cachorro que late
pra a gente no banco da praça
e a moça que cuida do cachorro
e a gente que dá oi pro cachorro que
caga
na
praça, depois de latir.
E tem as folhas em veludo,
e tem minha felicidade
velada
pelo dia esquisito,
pela carta mal escrita,
pelo beijo com sabor de lágrima.
Pra mim, as lágrimas são salgadas,
mas têm os dias em que são doces
e os dias em que não têm gosto algum.
E tem as lágrimas secas,
quietas.
Essas são as piores,
e tem os olhos vermelhos,
as narinas abertas,
as mãos trêmulas que tentam ser tiradas
de dentro das outras mãos.
Tem os textos pra ler, os Manuscritos de Marx, para entender. Marx me disse que a religião é forma de estranhamento, mas de estranho eu já tenho a vida, a estranho, te estranho às vezes também, assim como você me estranha em dias como esse.
E tem você,
que me vê triste,
que me vê,
que não insiste
em ter
qual-
quer
dia
que
se
di-
ga
belo.
E que não me deixa explicar que a sua doçura é o melhor dos sabores da vida, que quando se ausenta me torna uma obra do Munch.
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Vazio
O piano era tão triste, tão desconexo em si mesmo.O louco não era assim tão louco, se olhado de perto.
Talvez quisesse se expressar, quisesse se mostrar entendedor de tocar pianos na Luz.
É que a estação era do lado da vida a fora, era do lado da praça, do registro histórico, do museu, da arte internacional, do acervo escondido. Era ao lado do mendigo que teve convulsão em silêncio. E tocavam o piano sem ritmo. Com o coração compassado. O piano era tão desafinado, mas afinado se ouvido em silêncio. O silêncio dessa neblina, desse dia tão frio.
A estação da Luz não era assim tão bonita, se olhada devagar, sem ser na correria. O seu cabelo era tão grande, sua calça era vermelha, ele era tão solto. O outro cara me perguntou se eu duvidava que ele levava cachaça em sua mochila. Disse que era maquinista. A maquinaria não acompanhava o piano, ele disse que não tinha interesse. Não me importava com o Seu Mariano, queria que fosse embora, mas ele insistiu em conversar, insistiu em dizer que era viciado, que não queria ficar preso na fazenda de reabilitação.
E o piano tocava como louco, e o louco tocava o piano, e a louca parava, e eu, louca, ouvia, tentava entender.
Aí percebi (ou vou perceber) que tem coisas que não são entendidas, que são coisas intrínsecas à vida seca. Vida seca, úmida pelo dia chuvoso sem chuva. E as mãos tinham as extremidades geladas,meu dedão era gelado,meu sapato estava sujo
de barro.
E o sarro que
tiramos dessa gente
que pára pra
tentar sentir
a alma.
Talvez quisesse se expressar, quisesse se mostrar entendedor de tocar pianos na Luz.
É que a estação era do lado da vida a fora, era do lado da praça, do registro histórico, do museu, da arte internacional, do acervo escondido. Era ao lado do mendigo que teve convulsão em silêncio. E tocavam o piano sem ritmo. Com o coração compassado. O piano era tão desafinado, mas afinado se ouvido em silêncio. O silêncio dessa neblina, desse dia tão frio.
A estação da Luz não era assim tão bonita, se olhada devagar, sem ser na correria. O seu cabelo era tão grande, sua calça era vermelha, ele era tão solto. O outro cara me perguntou se eu duvidava que ele levava cachaça em sua mochila. Disse que era maquinista. A maquinaria não acompanhava o piano, ele disse que não tinha interesse. Não me importava com o Seu Mariano, queria que fosse embora, mas ele insistiu em conversar, insistiu em dizer que era viciado, que não queria ficar preso na fazenda de reabilitação.
E o piano tocava como louco, e o louco tocava o piano, e a louca parava, e eu, louca, ouvia, tentava entender.
Aí percebi (ou vou perceber) que tem coisas que não são entendidas, que são coisas intrínsecas à vida seca. Vida seca, úmida pelo dia chuvoso sem chuva. E as mãos tinham as extremidades geladas,meu dedão era gelado,meu sapato estava sujo
de barro.
E o sarro que
tiramos dessa gente
que pára pra
tentar sentir
a alma.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Junk
Ontem.
O sol laranja batendo no edifício pichado que víamos pela janela.
Você não o viu por ela.
me viu deitada, suada nos lençóis azuis
serenos, Sereno, meu caro, Moreno.
Ontem foi o Ontem que custou
cem reais, que custou
quatro horas,
que me deu
memórias de
sentir-te em
mim.
E o fim de ontem
teve o seu fim de
um tchau na rua,
no ônibus,
um beijo rápido
interrompido,
o Ontem foi assim,
rápido, laranja e preto, sem lua,
eu nua,
foi enrolado,
foi encontrado
nas imagens que tenho
de ti.
Magro. Com olheiras,
sem óculos.
Só os telescópios...
Mas isso foi na terça, e ontem foi Domingo
e ontem foi um pingo de
saudade, um pingo de ansiedade
de ter-te, de ver-te,
de não querer que o dia termine,
mas terminou,
escureceu.
O quarto alaranjado ficou azulado,
minha vida ficou azulada,
depois ficou pacata, ficou cor-de-nada,
cor de vida sem ti.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
domingo, 14 de julho de 2013
Se disse que
pintaria uma tela a óleo,
que desenharia algo detalhado
que não limitaria minhas ideias
que revelaria as analógicas
logicamente não reveladas,
vedadas ao esquecimento,
que tenho imagens e as
expressaria depois, outro dia,
que queria desenhar suas olheiras
da forma mais crua
que elas são,
que queria os nus
pra rabiscá-los em papel denso,
que faria os queísmos
menos presentes na vida,
que tudo que é o que
não fosse transformado
em poesia não pensada,
é por quê eu
dei mais tempo aos
pensamentos ilhados,
quiçá fosse isso.
Quiça, que fosse, o quê
dos dias que passam
sem fim.
pintaria uma tela a óleo,
que desenharia algo detalhado
que não limitaria minhas ideias
que revelaria as analógicas
logicamente não reveladas,
vedadas ao esquecimento,
que tenho imagens e as
expressaria depois, outro dia,
que queria desenhar suas olheiras
da forma mais crua
que elas são,
que queria os nus
pra rabiscá-los em papel denso,
que faria os queísmos
menos presentes na vida,
que tudo que é o que
não fosse transformado
em poesia não pensada,
é por quê eu
dei mais tempo aos
pensamentos ilhados,
quiçá fosse isso.
Quiça, que fosse, o quê
dos dias que passam
sem fim.
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