sábado, 14 de setembro de 2013

DIa seco

Sol salgado.
Seco. Beco da praça.

Me disse que preferiria
estar exposto ao sol do que
ter uma religião, que é analgésica
empacotada pra esquecer os problemas.

É que essa tristeza,
esse estranho desespero
diluído na rua,
na praça,
na lua - quando ela aparece-
é o que me faz dizer
que os dias são pesados,
com seus sabores diversos,
e o sol é denso,
o vento é lento,
e é tudo parado.
E tem o cachorro que late
pra a gente no banco da praça
e a moça que cuida do cachorro
e a gente que dá oi pro cachorro que
caga
na
praça, depois de latir.

E tem as folhas em veludo,
e tem minha felicidade
velada
pelo dia esquisito,
pela carta mal escrita,
pelo beijo com sabor de lágrima.
Pra mim, as lágrimas são salgadas,
mas têm os dias em que são doces
e os dias em que não têm gosto algum.

E tem as lágrimas secas,
quietas.
Essas são as piores,
e tem os olhos vermelhos,
as narinas abertas,
as mãos trêmulas que tentam ser tiradas
de dentro das outras mãos.

Tem os textos pra ler, os Manuscritos de Marx, para entender. Marx me disse que a religião é forma de estranhamento, mas de estranho eu já tenho a vida, a estranho, te estranho às vezes também, assim como você me estranha em dias como esse.

E tem você,
que me vê triste,
que me vê,
que não insiste
em ter
qual-
quer
dia
que
se
di-
ga

belo.

E que não me deixa explicar que a sua doçura é o melhor dos sabores da vida, que quando se ausenta me torna uma obra do Munch.

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