A neblina também não precisou do sol, ficou por ela mesma, a areia do parquinho sem crianças sujou meus sapatos. Eu gostei dos cachorros que encontramos pelo caminho, as casas simples, o cenário decadente e rural. Me senti bem contigo, bem em sua companhia que caminhava cansado, cansado, sem saldo no banco...Foquei o enquadramento, as pichações dentro dos balcões, o seu all-star verde que ano passado era preto, e tinha o cheiro de marofa, o cheiro de mato queimado e também tinha o cheiro do mato molhado pela neblina seca. E a gente andava por ali fotografando o que fosse interessante, mudava a velocidade do obturador, ajustava a entrada de luz na câmera, o tempo de exposição. Sentamos no campo de futebol sem ninguém, pareceu tão imenso, ficou tão legal a imagem do seu perfil com o campo ao fundo, eu dormi e tava tão quente, era tudo desconexo e esquisito, mas era bom deitar no teu colo nesse calor estranho e nessa ausência suspeita de pessoas. Trocamos o filme, fiquei com receio de que as fotos se perdessem.
Tinha a fogueira que quis fotografá-la, você disse que seria incômodo.
Achei o trem bonito, tinha as janelas riscadas e você sentou no último vagão com aquele olhar vago.
As fotos não foram reveladas. O filme era velho já, tinha dez anos. E talvez a paisagem de Paranapiacaba nunca mais fique daquele jeito, talvez nunca mais a olharemos com os mesmos olhos e talvez eu aos poucos me esqueça dessas lembranças visuais que agora me são tão vivas num lugar tão morto.
Recentemente li um conto do Borges em que ele falava que no fim das contas, o que fica nas lembranças não são as imagens, mas as palavras. O que fica na lembrança talvez sejam essas coisas desconexas, essas imagens verbalizadas em palavras agora. É isso o que resta, o que resta do que restou do dia, daquele sanduíche que eu fiz, que você disse que estava bom, de quando eu mexi no seu cabelo e você disse que ia bagunçá-lo. Ah, mas já estavam tão bagunçados, a gente é bagunçado, sabe, moço. A vida é bagunçada e não nos conta que as fotografias não serão reveladas, nem conta que os dias não serão mais os mesmos e que a luz que incindiu daquela forma nunca volta a ser desse jeito de novo. A vida também não nos conta que as lembranças não são as mesmas lembranças sempre, elas se idealizam, se atrofiam tentando manter a pose.
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