quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Kanji

Queria ser essa tua tatuagem, fazer parte de tua pele, pertencer às tuas costas, mas tu só me deste as costas, e encostou-se nas paredes dos meus dias. Eu seria um fardo leve, uma escrita em japonês.
Seria notada e fadada à constância com tuas pintas de sol...Pelo menos estaria desenhada em teu corpo, tão condenado à miséria de todo ser existente; apodreceria contigo, desbotaria minha tinta até não ter mais graça, até não ter mais forma alguma, até voltar nesse momento de indiferença, onde eu não existo e tu és apenas lembrança medíocre eternizada.

sábado, 21 de julho de 2012

FIOS



O céu estava de um azul concentrado. O sol se espreitava entre dois prédios; ela tirava suas sapatilhas enquanto sentava num tablado de madeira. Encostou sua cabeça à parede, pôs o cachecol xadrez sobre seu rosto como se protegesse seus olhos do contato direto ao sol fraco, nem se importou comigo ao seu lado. Fez que não se importasse pela minha presença. Sua blusa desfiava, seus cabelos dourados eram mais dourados ainda ao sol, ah, nem sabia que não eram dourados de verdade, eram somente desbotados por oxigenação; que seja, eram bonitos assim curtos.

Olhava o céu, o mesmo do azul concentrado de meia hora atrás, o sol ia-se indo, não queria que se fosse assim frio. Frio foi-se sem dar tchau, queria ter visto a parte da cidade que se encontrava laranja: o belo de pôr do sol em dias sem nuvens era que as tonalidades se tornavam avermelhadas e alaranjadas...

-Conte-me algo-ela falou quebrando meu pensamento laranja.
-Contar o que?- Perguntei sem pensar...
-Ah, não sei... Conte-me algo! Pergunte-me algo, eu respondo.
E a conversa foi-se seguindo sem muitas risadas, sem muito interesse, sem muita reciprocidade de ideias. Tirei dos meus pés meu “ super-star” de cano alto; não liguei que a ponta de meu dedão estava exposta. Expostos estávamos nós ao sol...
-"Não estou disposto a ficar exposto ao sol..."
-Quê?
-Nada não... Uma música, mas eu quero ficar exposto a esse sol que já se vai...

Quando eu olhava para um dos prédios a nossa frente parecia que ele ia cair em minha direção. Olhei para ela por algum tempo. Havia tirado o cachecol do rosto, mas fechou seus olhos pequenos, juntou as pontas dos pés, estendeu as pernas. Ficamos assim, ambos estendidos ao fino fio de sol.

Fio de sol era parte de seu cabelo artificial. Aí reparei que as amizades se desgastam, gastei 3 reais à toa, o tempo passa,  ela não via mais muita graça em minha companhia solitária, eu sabia superficialmente de sua vida, ela não sabia nada da minha, e os fios de cabelo tornam-se loiros. 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Desenho escrito


Tentei te desenhar
Mas o tempo era pouco
Ouvi um grito rouco,
Silencioso
Estrondo de chuva...
Tentei te desenhar,
Fechar os olhos
De tantas maneiras possíveis.
Ah, eu sei que só se
Fecha os olhos
De uma maneira,
E que tu nem sonhas
Que corri o pincel
Sobre teu rosto...
Diga-me que é inútil
A sutileza de misturar
As cores e derramar
Nanquim por cima...
Jeito de dizer-me
Tuas incertezas
Nunca ditas.
Teus olhos eram verdes
Mas no papel, amarelados.
Teu sorriso safado.
No papel tudo muda,
Até teu papel de ator
Previsivelmente seguia
Teu dragão que não existia...
Diga-me qualquer
Coisa sem sentido,
Que os dias passam,
As músicas são muitas
O tempo é pouco para
Arte morta
Arte de me desprender
De ti em qualquer
Pensamento meu,
E a tinta era aguada demais
Para desenhar minhas
Lágrimas,
O papel era insuficiente
E não se apaga aquarela
Apenas se paga a água
Usada para diluir desânimos...
O jeito é rasgar
Vestígios de traços
Destroçados pela
Tentativa ilustrada
Tempo tido, perdido
“dito cujo”
Sempre penso
Em ti.
Aí percebi
Que há coisas que
A arte não expressa,
Que a tentativa falha
Esfarelada
Por cascas de lápis
Apontados
Para escrever 
sem métrica
Desenhos
sem técnica.

Janta


Comi comida fria,
carne dura,
durou uma eternidade.
Subi num banco
no penhasco
que separou meus dias.
dormi sem sono,
sem ritmo na respiração.
Comi arroz e feijão,
dormi de desgosto
degustado.

domingo, 6 de maio de 2012

Cinzas de fauvismos cinzas

Se sentisse meu olho
vermelho
inflamado, e dado
meu dado jogado
aleatoriamente;
se sua mente não
mentisse,
se não matasse Matisse
com meus fauvismos
acinzentados,
se não sentisse
coisa alguma,
então eu não faria
mais rimas medíocres
sobre mim mesma. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Acupuntores


Quando eu era menor, me disseram que se uma agulha perfurasse alguma veia do braço, essa moveria conforme a corrente sanguínea, até chegar ao coração. Hoje utilizo das agulhas para furar os lacres de nanquim industrializados, aqueles que vêm em uma bisnaga, ficam envoltos por uma pressão afim de não escorrerem pelo plástico... 

Então vou até o quarto de minha mãe, atrás do segundo armário tem uma caixa de costura cujo conteúdo são agulhas atrofiadas em um coração de enchimento vazio. Hoje percebo que talvez o destino da corrente sanguínea não fosse um coração humano, e sim um coração de enchimentos de tecidos amontoados que repousam as agulhas na conformidade de ausência de sua utilidade. Pego a agulha, mas hoje, por algum motivo ela não perfurou o lacre de plástico, a tinta densa não escorreu inicialmente. Tentei de novo, escorreu. Hoje  manchei o coração de enchimento com nanquim ( já que não havia onde deixar o excesso da tinta). 

Fora um acupuntor que me ensinou a não acreditar nas palavras não ditas.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Brinco de pena

Eu te disse que teu brinco
Não era de uma arara,
Fora pena de uma pomba...
Disse-te que sobrepuseram 
com a tinta que escorria
Daquela cor diluída
Em aquarela clara,
Tão sem vida...
Disse-te tantas coisas
Para dar-te conforto...
Todas vãs, todas assim
De certa forma encaixadas
Em tuas joias de latão,
Tão amplamente preciosas,
Adornadas pelas tuas
Belas preocupações
De expressões
Mal sucedidas
Através
De um
Poema.

domingo, 11 de março de 2012

Até as estrelas mentem

                                                     

                                                            Órion                  
                                               

                                    Me                                                   olhava.          



                                                                  
                                                         Eu,
                                                Me



                                                       Molhava
                                                       Com
                                                      Algumas                
                                                                                                            Lágrimas
                                         
                                             
                                 Secas.