Queria ser essa tua tatuagem, fazer parte de tua pele, pertencer às tuas costas, mas tu só me deste as costas, e encostou-se nas paredes dos meus dias. Eu seria um fardo leve, uma escrita em japonês.
Seria notada e fadada à constância com tuas pintas de sol...Pelo menos estaria desenhada em teu corpo, tão condenado à miséria de todo ser existente; apodreceria contigo, desbotaria minha tinta até não ter mais graça, até não ter mais forma alguma, até voltar nesse momento de indiferença, onde eu não existo e tu és apenas lembrança medíocre eternizada.
"De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado..." -Jorge Luis Borges
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
sábado, 21 de julho de 2012
FIOS
O céu estava de um azul
concentrado. O sol se espreitava entre dois prédios; ela tirava suas sapatilhas
enquanto sentava num tablado de madeira. Encostou sua cabeça à parede, pôs o cachecol xadrez sobre seu rosto como se
protegesse seus olhos do contato direto ao sol fraco, nem se importou comigo ao
seu lado. Fez que não se importasse pela minha presença. Sua blusa desfiava,
seus cabelos dourados eram mais dourados ainda ao sol, ah, nem sabia que não eram
dourados de verdade, eram somente desbotados por oxigenação; que seja, eram
bonitos assim curtos.
Olhava o céu, o mesmo do azul
concentrado de meia hora atrás, o sol ia-se indo, não queria que se fosse assim
frio. Frio foi-se sem dar tchau, queria ter visto a parte da cidade que se
encontrava laranja: o belo de pôr do sol em dias sem nuvens era que as
tonalidades se tornavam avermelhadas e alaranjadas...
-Conte-me algo-ela falou
quebrando meu pensamento laranja.
-Contar o que?- Perguntei sem
pensar...
-Ah, não sei... Conte-me algo!
Pergunte-me algo, eu respondo.
E a conversa foi-se seguindo
sem muitas risadas, sem muito interesse, sem muita reciprocidade de ideias.
Tirei dos meus pés meu “ super-star” de cano alto; não liguei que a ponta de
meu dedão estava exposta. Expostos estávamos nós ao sol...
-"Não estou disposto a ficar
exposto ao sol..."
-Quê?
-Nada não... Uma música, mas
eu quero ficar exposto a esse sol que já se vai...
Quando eu olhava para um dos
prédios a nossa frente parecia que ele ia cair em minha direção. Olhei para ela
por algum tempo. Havia tirado o cachecol do rosto, mas fechou seus olhos
pequenos, juntou as pontas dos pés, estendeu as pernas. Ficamos assim, ambos
estendidos ao fino fio de sol.
Fio de sol era parte de seu
cabelo artificial. Aí reparei que as amizades se desgastam, gastei 3 reais à
toa, o tempo passa, ela não via mais
muita graça em minha companhia solitária, eu sabia superficialmente de sua
vida, ela não sabia nada da minha, e os fios de cabelo tornam-se loiros.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Desenho escrito
Tentei te desenhar
Mas o tempo era pouco
Ouvi um grito rouco,
Silencioso
Estrondo de chuva...
Tentei te desenhar,
Fechar os olhos
De tantas maneiras possíveis.
Ah, eu sei que só se
Fecha os olhos
De uma maneira,
E que tu nem sonhas
Que corri o pincel
Sobre teu rosto...
Diga-me que é inútil
A sutileza de misturar
As cores e derramar
Nanquim por cima...
Jeito de dizer-me
Tuas incertezas
Nunca ditas.
Teus olhos eram verdes
Mas no papel, amarelados.
Teu sorriso safado.
No papel tudo muda,
Até teu papel de ator
Previsivelmente seguia
Teu dragão que não existia...
Diga-me qualquer
Coisa sem sentido,
Que os dias passam,
As músicas são muitas
O tempo é pouco para
Arte morta
Arte de me desprender
De ti em qualquer
Pensamento meu,
E a tinta era aguada demais
Para desenhar minhas
Lágrimas,
O papel era insuficiente
E não se apaga aquarela
Apenas se paga a água
Usada para diluir desânimos...
O jeito é rasgar
Vestígios de traços
Destroçados pela
Tentativa ilustrada
Tempo tido, perdido
“dito cujo”
Sempre penso
Em ti.
Aí percebi
Que há coisas que
A arte não expressa,
Que a tentativa falha
Esfarelada
Por cascas de lápis
Apontados
Para escrever
sem métrica
sem métrica
Desenhos
sem técnica.
sem técnica.
Janta
Comi comida fria,
carne dura,
durou uma eternidade.
Subi num banco
no penhasco
que separou meus dias.
dormi sem sono,
sem ritmo na respiração.
Comi arroz e feijão,
dormi de desgosto
degustado.
domingo, 6 de maio de 2012
Cinzas de fauvismos cinzas
Se sentisse meu olho
vermelho
vermelho
inflamado, e dado
meu dado jogado
aleatoriamente;
se sua mente não
mentisse,
se não matasse Matisse
com meus fauvismos
acinzentados,
se não sentisse
coisa alguma,
então eu não faria
mais rimas medíocres
sobre mim mesma.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Acupuntores
Quando eu era menor, me disseram que se uma agulha
perfurasse alguma veia do braço, essa moveria conforme a corrente sanguínea,
até chegar ao coração. Hoje utilizo das agulhas para furar os lacres de nanquim
industrializados, aqueles que vêm em uma bisnaga, ficam envoltos por uma
pressão afim de não escorrerem pelo plástico...
Então vou até o quarto de minha mãe, atrás do segundo
armário tem uma caixa de costura cujo conteúdo são agulhas atrofiadas em um
coração de enchimento vazio. Hoje percebo que talvez o destino da corrente
sanguínea não fosse um coração humano, e sim um coração de enchimentos de
tecidos amontoados que repousam as agulhas na conformidade de ausência de sua
utilidade. Pego a agulha, mas hoje, por algum motivo ela não perfurou o lacre
de plástico, a tinta densa não escorreu inicialmente. Tentei de novo, escorreu.
Hoje manchei o coração de enchimento com
nanquim ( já que não havia onde deixar o excesso da tinta).
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Brinco de pena
Eu te disse que teu brinco
Não era de uma arara,
Fora pena de uma pomba...
Disse-te que sobrepuseram
com a tinta que escorria
Daquela cor diluída
Em aquarela clara,
Tão sem vida...
Disse-te tantas coisas
Para dar-te conforto...
Todas vãs, todas assim
De certa forma encaixadas
Em tuas joias de latão,
Tão amplamente preciosas,
Adornadas pelas tuas
Belas preocupações
De expressões
Mal sucedidas
Através
De um
Poema.
domingo, 11 de março de 2012
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